Hoje parece impossível imaginar a história terminando de outra maneira: Ozzy Osbourne sentado em seu trono, Tony Iommi empunhando a guitarra, Geezer Butler no baixo, Bill Ward novamente atrás da bateria e Birmingham diante deles.

Mas aquela cena histórica de 5 de julho de 2025, no Villa Park, quase não aconteceu. Tony Iommi revelou que inicialmente foi contrário à participação do Black Sabbath no gigantesco “Back to the Beginning”. Sua resistência era tão grande que chegou a apresentar a Ozzy uma alternativa radical: não tocar.

A ideia era deixar que as dezenas de músicos convidados celebrassem o repertório de Ozzy e do Black Sabbath. No final, os integrantes poderiam subir ao palco, agradecer ao público e encerrar a noite — sem reunião, sem apresentação do Sabbath e sem um último “Paranoid”.

PARA TONY, O BLACK SABBATH JÁ HAVIA TERMINADO

A primeira razão para a resistência era simples: o Black Sabbath já tinha feito sua despedida. A turnê “The End” havia sido concebida para encerrar a trajetória da banda e terminou em 4 de fevereiro de 2017, na Genting Arena, em Birmingham.

Para Iommi, aquilo significava exatamente o que estava escrito no nome da turnê. Não uma pausa nem uma estratégia para outra reunião. O fim.

MAS HAVIA UMA HISTÓRIA INACABADA

A despedida de 2017 possuía uma ausência importante: Bill Ward. A formação que havia criado tudo — Ozzy, Tony, Geezer e Bill — não havia terminado junta. “Back to the Beginning” oferecia, pela primeira vez em cerca de duas décadas, a chance de os quatro dividirem novamente um palco.

OZZY QUERIA UMA ÚLTIMA NOITE

Depois de anos enfrentando graves problemas de saúde, cirurgias e cancelamentos, a carreira de Ozzy nos palcos havia praticamente desaparecido sem que ele pudesse escolher como terminaria. O evento oferecia a possibilidade de voltar a Birmingham, reunir amigos, realizar uma última apresentação solo e depois encerrar tudo com o Black Sabbath.

Iommi chegou a propor que Metallica, Guns N’ Roses, Tool, Pantera, Alice in Chains, Gojira, Slayer e os demais convidados fizessem a homenagem, enquanto os integrantes apenas apareceriam no encerramento para agradecer. O caráter beneficente do evento e a oportunidade de fechar a história com Bill Ward ajudaram Tony a mudar de posição.

TONY NÃO SABIA SE OZZY CONSEGUIRIA

Quando começaram os preparativos, a condição física de Ozzy era impossível de ignorar. Ele teria que cantar sentado em um trono especial, com toda a apresentação adaptada às suas limitações.

Para Tony, ver o velho amigo naquela condição foi difícil. Ele guardava na memória o Ozzy imprevisível, correndo, pulando, batendo palmas e fazendo caretas para fazê-lo rir durante as músicas. Agora, o desafio era simplesmente chegar ao final.

E TONY ERA CONTRA O SHOW SOLO DE OZZY

Antes de cantar com o Black Sabbath, Ozzy faria sua própria apresentação solo. Iommi temia que ele gastasse toda a energia disponível antes de o Sabbath subir ao palco e preferia preservar o vocalista para aquele último momento.

Para Ozzy, porém, fazia sentido separar as duas histórias: existia o vocalista do Black Sabbath, mas também a gigantesca carreira solo construída ao lado de músicos como Randy Rhoads, Bob Daisley, Lee Kerslake, Jake E. Lee, Zakk Wylde e Mike Inez. A despedida precisava representar as duas trajetórias.

TONY, GEEZER E BILL ENTRARAM NO PALCO

Quando Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward se juntaram a Ozzy, o espetáculo deixou de ser simplesmente um festival. O Black Sabbath original estava novamente diante do público, e a presença de Bill transformava aquela apresentação em algo que nem a despedida de 2017 havia conseguido oferecer.

O set precisou ser curto: “War Pigs”, “N.I.B.”, “Iron Man” e “Paranoid”. “Black Sabbath”, a música que batizou a banda e seu primeiro álbum, chegou a ser trabalhada, mas ficou de fora.

A ADRENALINA LEVOU OZZY ATÉ O FINAL

Diante do Villa Park lotado, em sua própria cidade e cercado por amigos, Ozzy encontrou forças. Não era o artista fisicamente explosivo de outras décadas, mas a voz, a personalidade e, principalmente, a vontade estavam ali.

A ESCOLHA GANHOU OUTRO SIGNIFICADO

Em 22 de julho de 2025, apenas 17 dias depois do show, Ozzy Osbourne morreu. A decisão de Tony de aceitar participar ganhou outro significado: não haveria outra reunião, outro show surpresa nem oportunidade de corrigir uma despedida incompleta.

Tony e Ozzy ainda conversaram por telefone na noite anterior à morte do vocalista. Ozzy disse estar extremamente cansado. Iommi considerou compreensível depois de toda a preparação física e emocional para o evento. No dia seguinte, recebeu a notícia.

SE TONY TIVESSE MANTIDO O “NÃO”...

O festival e as homenagens poderiam ter acontecido, Ozzy talvez ainda tivesse realizado seu set solo e os integrantes poderiam ter apenas subido ao palco para abraçá-lo e agradecer. Nesse cenário, a última apresentação do Black Sabbath continuaria sendo a de 2017, sem Bill Ward.

A presença do baterista mudou o significado daquela noite. Em 2025, o grupo terminou como havia começado: com Ozzy, Tony, Geezer e Bill.

O ÚLTIMO “PARANOID”

“Paranoid”, criada em 1970 quase como uma necessidade de preencher espaço em um álbum, tornou-se uma das músicas mais conhecidas do heavy metal e acabou servindo como a última tocada ao vivo pelo Black Sabbath.

Quando terminou, ninguém sabia que também assistia aos últimos minutos de Ozzy Osbourne em um palco.

A DESPEDIDA QUE QUASE NÃO EXISTIU

Hoje, “Back to the Beginning” parece inevitável, como se a história sempre tivesse sido destinada a terminar daquela maneira. Mas houve dúvidas, resistência e preocupação. Tony acreditava que “The End”, em 2017, deveria permanecer como encerramento definitivo e temia pela condição física do amigo.

No final, aceitou. Bill Ward voltou. Geezer Butler voltou. Tony plugou sua guitarra. Ozzy sentou-se em seu trono. E os quatro jovens de Birmingham tiveram uma última oportunidade de ficar juntos diante do público.

Tony Iommi quase disse não.
Felizmente, disse sim.