Guitarrista do Black Sabbath conta que falou com Ozzy na noite anterior à sua morte e relembra o impacto de dividir o palco com o velho amigo uma última vez em Birmingham
Existem conversas absolutamente comuns que só revelam sua verdadeira importância depois que é tarde demais.
Para Tony Iommi, uma delas aconteceu na noite de 21 de julho de 2025.
Do outro lado da linha estava Ozzy Osbourne.
Amigos desde a juventude em Birmingham, parceiros na criação do Black Sabbath e protagonistas de uma história que ajudou a transformar definitivamente a música pesada, os dois continuavam mantendo contato mesmo depois de tantas décadas.
Naquela noite, conversaram novamente.
Ozzy estava cansado.
Muito cansado.
Tony não imaginava que aquela seria a última vez que ouviria a voz do velho amigo.
No dia seguinte, 22 de julho de 2025, Ozzy Osbourne morreu aos 76 anos.
“ESTOU REALMENTE ESGOTADO”
Iommi contou que ele e Ozzy conversavam regularmente.
Às vezes semanalmente, outras vezes a cada duas semanas.
Mesmo separados pelo Atlântico — Ozzy vivendo nos Estados Unidos durante boa parte daqueles anos e Tony na Inglaterra — os dois mantinham uma relação curiosamente cotidiana.
Depois de tudo que haviam vivido, muitas das conversas acabavam girando em torno de algo bastante humano: a saúde.
Um perguntava como o outro estava.
Na última conversa, porém, Ozzy pareceu particularmente exausto.
Ele disse a Tony que estava muito cansado e desgastado.
Iommi não interpretou aquilo como um sinal de que algo estava prestes a acontecer.
Sua reação foi perfeitamente compreensível.
Depois de tudo o que Ozzy havia enfrentado para conseguir realizar seu último show, estar exausto parecia absolutamente normal.
Poucas horas depois, aquela conversa ganharia um significado completamente diferente.
TONY ACHOU QUE ERA O PREÇO DO ÚLTIMO SHOW
A interpretação de Iommi fazia sentido.
Dezessete dias antes, Ozzy havia realizado algo que durante anos pareceu impossível.
Em 5 de julho de 2025, o Villa Park recebeu o histórico “Back to the Beginning”.
O evento reuniu algumas das maiores bandas e músicos do rock e do heavy metal para celebrar Ozzy e o Black Sabbath justamente em Birmingham, onde toda aquela história havia começado.
Mas chegar até aquele palco exigiu muito de Ozzy.
Seus problemas de saúde eram conhecidos.
Ele já não conseguia se apresentar em pé como antigamente.
Os ensaios precisaram respeitar suas limitações físicas.
Mesmo assim, Ozzy estava determinado a participar.
Queria se despedir dos fãs.
Queria cantar novamente em Birmingham.
E, principalmente, queria subir ao palco uma última vez com Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward.
Ele conseguiu.
VER OZZY SENTADO FOI DIFÍCIL PARA IOMMI
Para o público, a imagem de Ozzy em seu enorme trono preto tornou-se instantaneamente histórica.
Para Tony Iommi, entretanto, havia algo estranho e emocional naquela cena.
Durante décadas, ele se acostumou a olhar para o lado e encontrar um Ozzy completamente diferente.
Correndo pelo palco.
Pulando.
Batendo palmas.
Fazendo caretas.
Tentando provocar risadas nos companheiros durante as músicas.
No Villa Park, tudo havia mudado.
Ozzy precisava permanecer sentado.
Iommi admitiu que aquilo foi difícil porque não era a imagem do companheiro de palco que havia guardado durante todos aqueles anos.
Mas Ozzy estava ali.
E isso era o que realmente importava.
QUATRO HOMENS DE BIRMINGHAM JUNTOS UMA ÚLTIMA VEZ
Tony Iommi.
Geezer Butler.
Bill Ward.
Ozzy Osbourne.
A formação original do Black Sabbath conseguiu terminar sua história no mesmo lugar onde tudo havia começado.
Birmingham.
Isso possui um significado especial.
Depois da turnê de despedida “The End”, encerrada em 2017, parecia improvável que a formação original pudesse dividir novamente um palco.
Bill Ward não havia participado daquela última turnê.
Mas “Back to the Beginning” era diferente.
Tratava-se da despedida de Ozzy.
Era uma celebração de toda aquela história.
E havia dezenas de músicos que haviam sido influenciados pelo Black Sabbath dispostos a participar.
No fim daquela noite, os quatro integrantes originais estavam juntos novamente.
Hoje, isso parece quase inacreditavelmente simbólico.
Eles tiveram uma última oportunidade de terminar juntos aquilo que haviam começado mais de cinco décadas antes.
OZZY ESTAVA FELIZ
Depois do show, Tony conversou com Ozzy.
E encontrou um homem satisfeito.
O evento havia sido enorme, mas talvez o aspecto mais importante fosse muito mais simples:
Ozzy havia conseguido.
Depois de anos de cirurgias, problemas físicos, cancelamentos e dúvidas sobre se conseguiria novamente subir a um palco, finalmente realizou sua despedida.
Para um homem que passou seus últimos anos perseguindo obstinadamente a possibilidade de se apresentar novamente, o Villa Park representava uma espécie de missão cumprida.
Ozzy havia retornado a Birmingham.
Cantado para seus fãs.
Feito sua apresentação solo.
E terminado a noite novamente como vocalista do Black Sabbath.
17 DIAS DEPOIS, A ÚLTIMA CONVERSA
Então chegamos novamente à noite de 21 de julho.
Ozzy e Tony conversaram.
Ozzy falou sobre o cansaço.
Tony achou compreensível.
O próprio Iommi também sabia o tamanho do esforço necessário para colocar aquela despedida em pé.
A conversa terminou.
No dia seguinte veio a notícia.
Ozzy havia morrido.
Iommi descreveu a sensação como um choque enorme.
Talvez porque, apesar de todos os problemas de saúde, Ozzy parecia ser uma daquelas pessoas que simplesmente continuariam sobrevivendo.
Durante décadas ele havia feito exatamente isso.
Excessos.
Dependência química.
Acidentes.
Cirurgias.
Doenças.
Problemas que teriam encerrado muitas outras histórias.
Ozzy sempre voltava.
Dessa vez não voltou.
“PARECE QUE ELE AINDA ESTÁ AQUI”
Mais de um ano depois, Tony ainda demonstra dificuldade em assimilar completamente a ausência do amigo.
Existe uma explicação curiosa para essa sensação.
Ozzy continua aparecendo o tempo inteiro.
Uma música começa a tocar.
Um vídeo antigo surge.
Uma apresentação aparece na televisão ou na internet.
Uma fotografia reaparece.
E por alguns instantes ele está novamente ali.
É uma experiência provavelmente familiar para milhões de fãs, mas que possui outra dimensão para alguém que dividiu praticamente uma vida inteira com ele.
Para Tony, aquelas imagens não mostram apenas Ozzy Osbourne, a estrela.
Mostram um velho amigo.
UMA HISTÓRIA QUE COMEÇOU ANTES DO BLACK SABBATH
Talvez seja impossível compreender o peso dessa perda olhando apenas para a carreira da banda.
Tony e Ozzy não eram simplesmente dois músicos contratados para trabalhar juntos.
Eles vieram do mesmo universo.
Aston.
Birmingham industrial.
Famílias operárias.
Pouco dinheiro.
Poucas perspectivas de que jovens daquela região algum dia conquistariam o mundo.
Antes de existir o Black Sabbath, existiam John Michael Osbourne e Anthony Frank Iommi.
Depois vieram Geezer Butler e Bill Ward.
Primeiro Polka Tulk.
Depois Earth.
Finalmente Black Sabbath.
O que aconteceu a seguir mudou a história da música.
MAIS DE CINCO DÉCADAS ENTRE O PRIMEIRO E O ÚLTIMO PALCO
Quando o Black Sabbath lançou seu primeiro álbum em 1970, nenhum deles poderia imaginar o tamanho do que estavam criando.
O som sombrio da guitarra de Tony.
As letras de Geezer.
A bateria imprevisível de Bill.
A voz imediatamente reconhecível de Ozzy.
A combinação ajudou a estabelecer as bases daquilo que posteriormente seria chamado de heavy metal.
Vieram discos históricos.
“Black Sabbath”.
“Paranoid”.
“Master of Reality”.
“Vol. 4”.
“Sabbath Bloody Sabbath”.
“Sabotage”.
Vieram também conflitos.
A saída de Ozzy.
Carreiras separadas.
Reuniões.
Novas despedidas.
E finalmente Birmingham novamente.
O ÚLTIMO BLACK SABBATH
No encerramento de “Back to the Beginning”, aquela história completou seu círculo.
Os quatro músicos que haviam criado juntos aquele som no final dos anos 1960 estavam novamente no mesmo palco.
Mais velhos.
Marcados pelo tempo.
Com uma história gigantesca atrás deles.
Ozzy estava sentado em um trono porque seu corpo já não permitia que fosse aquele vocalista que corria pelo palco tentando fazer Tony Iommi rir.
Mas ele estava lá.
Tony estava lá.
Geezer estava lá.
Bill estava lá.
O Black Sabbath estava novamente inteiro.
Ninguém naquele estádio poderia imaginar que aquela reunião não seria apenas a última apresentação da banda.
Seria também a última apresentação da vida de Ozzy Osbourne.
A ÚLTIMA CONVERSA NÃO TEVE UMA GRANDE DESPEDIDA
É justamente isso que torna aquele telefonema entre Tony e Ozzy tão poderoso.
Não houve uma despedida cinematográfica.
Não houve um grande discurso.
Não houve uma frase cuidadosamente preparada para entrar na história do rock.
Havia apenas dois velhos amigos conversando.
Como provavelmente haviam feito centenas de vezes.
Ozzy estava cansado.
Tony achou normal.
Eles desligaram.
E no dia seguinte, Ozzy se foi.
Depois de quase seis décadas de amizade, brigas, separações, reuniões, discos, estádios e alguns dos riffs mais importantes já gravados, a última conversa entre Tony Iommi e Ozzy Osbourne terminou da maneira mais humana possível.
Sem que nenhum dos dois soubesse que seria a última.
O ADEUS QUE ELES NÃO SABIAM QUE ESTAVAM DANDO
Talvez exista algum conforto no fato de que, poucas semanas antes, eles conseguiram fazer aquilo que durante muito tempo pareceu impossível.
Voltaram para Birmingham.
Subiram ao palco com Geezer e Bill.
Tocaram Black Sabbath.
Ozzy conseguiu olhar para sua cidade uma última vez e receber a homenagem de milhares de pessoas.
Tony conseguiu tocar ao lado daquele velho amigo novamente.
E os quatro homens que ajudaram a criar o heavy metal tiveram a oportunidade de fechar juntos um círculo iniciado quando eram apenas jovens de Aston tentando encontrar alguma coisa para fazer com suas vidas.
Quando Tony desligou o telefone naquela noite de 21 de julho, não sabia que estava se despedindo.
Mas talvez a verdadeira despedida já tivesse acontecido.
Dezessete dias antes.
No Villa Park.
Em Birmingham.
Com Tony Iommi na guitarra.
Geezer Butler no baixo.
Bill Ward na bateria.
E Ozzy Osbourne, uma última vez, à frente do Black Sabbath.